Formação de empreendedores, como é e como deveria ser

 

 

Por Thiago de Carvalho*

9ª avenida, West Side de Manhattan, Nova York. Numa tarde típica de verão, um colega e eu almoçávamos em um dos meus restaurantes favoritos. À espera do pedido, a conversa girava em torno de assuntos ligados ao ensino superior. Na época, ambos erámos estudantes nos EUA. Ele cursando MBA em uma tradicional escola de negócios e eu concluindo o Mestrado em Educação e Ensino de Negócios na New York University.

Antes do prato principal chegar, surgiu a pergunta: como as pessoas aprendem marketing? Ela veio de bate-pronto, do meu colega, na época cursando essa disciplina no MBA. Ele continuou: ao final do curso, como posso garantir que aprendi marketing? A duração da disciplina é de apenas quatro meses dentro de um programa de dois anos! Suas perguntas faziam muito sentido. A preocupação era como tirar máximo proveito do curso, financiado por ele mesmo, em dólar.

Após saborearmos o melhor Phad Thai da cidade, continuamos a conversa sobre como adultos aprendem, seja em ambientes formais (Ensino Superior), seja no dia a dia. Aproveitei a oportunidade para apresentar as descobertas da pesquisa que fazia sobre aprendizagem de empreendedores. A conclusão que chegamos é a seguinte: mais impressionante que meu colega aprender marketing em quatro meses – nos EUA, em um MBA – é o que ocorre com quem persegue a carreira de empreendedor(a).

No Brasil, duas milhões de empresas são formalizadas todos os anos. Em um sistema educacional que prioriza processos seletivos para empregos tradicionais e concursos, o número impressiona. Mesmo que todos os 800 mil alunos de administração abrissem um negócio, a conta não fecha. Ou seja, empresas são abertas e geridas por pessoas que não passaram pela educação formal em criação ou gestão de negócios. Pessoas como minha irmã, fisioterapeuta, ou minha esposa, formada em turismo e que atualmente empreende na área de pesquisa de mercado.

O mesmo é verdade para engenheiros, advogados, médicos, educadores, contadores e demais profissionais que não tiveram a oportunidade de ingressar ou concluir uma faculdade. Não há, dentro ou fora das instituições de ensino, cultura que promova o desenvolvimento vocacional estruturado de empreendedores. 

4,0 milhões de alunos querem ter o próprio negócio

Estudo realizado pelo Sebrae e Endeavor indica que 60% dos alunos de graduação - ou quatro milhões de pessoas - querem ter um negócio próprio. Um caminho natural seria que obtivessem apoio do centro de carreiras ou de empregabilidade de suas instituições. No entanto, mesmo que a escola possua um, é provável que as práticas mais comuns sejam a publicação de vagas de emprego e a feira de carreiras. Ou seja, empreendedorismo como opção de carreira é deixado de lado até pela área que, com relativamente pouco esforço, mais poderia influenciar alunos.

Por ser um campo acadêmico jovem, o empreendedorismo ainda está sendo absorvido pelas instituições e seus profissionais. Alguns ainda veem como a disciplina que briga por espaço na já apertada grade curricular. Nesse caso, o papel da sua promoção fica a cargo dos poucos educadores mais antenados às demandas do mercado. Esses, por sua vez, se esforçam para inserir o assunto na agenda da instituição, seja por meio de cursos, palestras ou da forma que conseguirem.

Nas escolas onde o assunto já faz parte do vocabulário, duas abordagens concorrem entre si. Uma delas é a da comodidade. Ao disponibilizar uma disciplina sobre o assunto, algumas instituições assumem que estão praticando o que há de mais avançado no mercado. Outra abordagem é a do quanto mais, melhor. Nesse caso, mais raro, a instituição oferece disciplinas derivadas, como empreendedorismo social, tecnológico, intraempreendedorismo, gestão da pequena e média empresa, criação de produtos e serviços, entre outras.

Ainda mais incomuns são instituições que ultrapassam os limites da faculdade de administração e oferecem a estudantes de outras áreas acesso à essas disciplinas. No caso da PUC-Rio, milhares de alunos de diferentes formações participam de cursos transversais organizados pelo Núcleo de Pesquisa e Ensino em Empreendedorismo.

Em São Paulo, mais familiarizado com as iniciativas do Insper – onde atuo há 10 anos –, posso afirmar que a instituição desenvolveu um zeitgeist (clima e cultura) que sustenta e promove o tema. Um exemplo disso é a faculdade de engenharia que a escola intraempreendeu recentemente. Alunos de administração, economia e engenharia já desenvolvem algumas atividades em conjunto.

Na região Sul do Brasil, a Universidade do Sul de Santa Catarina inova ao desenvolver um programa de pós graduação em empreendedorismo e novos negócios. Nele, capacitará ex-alunos e empresários da região para atuarem como mentores na escola.

Hoje, o ecossistema está fora da instituição

Ao retornar dos EUA, em 2015, iniciei um trabalho ligado à formação de professores de empreendedorismo e negócios. Após participar do desenvolvimento de centenas de educadores de todas as regiões do Brasil, concluo que a situação é melhor do que parece.

Justamente por ser um campo acadêmico novo, as universidades ainda não tiveram tempo suficiente para se apropriar do tema. Dessa forma, um ecossistema inteiro foi criado, a despeito do que ocorre nas instituições de ensino superior. Atividades que não existiam passaram a ganhar relevância, como competições de negócios, programas de aceleração, cursos livres presenciais e online. Encontros temáticos emissões a empresas e regiões são outros exemplos do que ocorre no mercado, assim como programas de mentoria e publicações sobre criação de produtos, vendas e desenvolvimento web.

Do mesmo modo como alunos de graduação recém formados não são contratados como diretores de empresa, não se espera que criem negócios multimilionários logo após a formatura. No entanto, mesmo frequentando um curso por anos, eles acabam não conhecendo os caminhos que precisam seguir caso queiram se preparar para isso. Em relação aos alunos de pós-graduação, são eles que têm maiores chances de constituírem empresas estruturadas. Afinal, já conhecem a dinâmica de um ou mais mercados, são mais experientes e conectados.

Um dos caminho para promover empreendedorismo como opção de carreira é intraempreender na sua própria instituição. Segmente os perfis de alunos que você planeja desenvolver, envolva as diferentes coordenações e desenhe um plano. Isso pode ser feito respondendo a duas perguntas: o que nossa instituição está fazendo para apoiar o empreendedorismo como opção de carreira? Como podemos fazer mais?

*É Mestre em Educação e Ensino de Negócios pela New York University, professor de empreendedorismo e fundamentos de negócios do Insper e professor convidado da FGV-SP, PUC-RJ e Universidade do Sul de Santa Catarina. É também Country Manager da Clinton Education.

 

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